sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Vinhos e seus aromas

Salut les amis!
Muitos enófilos e profissionais já falaram sobre este assunto, ainda assim resolvi escrever um pouco sobre os aromas que encontramos nos vinhos. Mesmo para mim, que já curto esta bebida há algum tempo, o assunto ainda é instigante e um pouco assustador. Ainda lembro como eu observava, entre atônito, admirado e fascinado, os degustadores mais experientes que identificavam os aromas mais insuspeitos em uma taça e - pumba! Não é que eles estavam lá mesmo e eu não havia reparado? Alguns podem dizer que isso parece um sugestionamento, mas eu penso que é falta de treinamento mesmo! Portanto, o texto que segue abaixo tem mais o intuito de funcionar como um guia ligeiro para que os amigos mais desesperados com essa situação não se aborreçam em um próximo evento ou degustação... 
Procuro relacionar de maneira simples os aromas esperados para cada cepa - e alguns inesperados também - baseado em bibliografia especializada e em alguma experiência. Alguns aromas podem parecer estranhos, e são mesmo desconhecidos para a maioria de nós - por exemplo, eu nunca havia cheirado uma raiz de alcaçuz! Mas ao longo do tempo, provando vinhos e estudando suas descrições, por "desassociação", fui percebendo que aquele aroma que estava ali presente nos bons merlots, em alguns syrahs, parecido com uma especiaria doce, caramelada, que não parecia nada conhecido, só podia ser o danado do alcaçuz, ora bolas! E por aí a gente vai, deduzindo e descobrindo o que nossos sentidos às vezes parecem nos tentar ludibriar.
Antes de mais nada, o mais básico que precisamos saber quando se fala em aromas do vinho é que eles podem ser divididos em três classes:

1. Primários 
Também chamados de varietais, pois provém do próprio bago da uva, das substâncias químicas formadas pelos processos fisiológicos das plantas (vinho varietal é aquele que é elaborado com apenas um tipo de uva). São aromas frutados, florais, vegetais, especiados (de especiaria, condimentados) e minerais - e aqui cabe um belo parêntese: muita gente diz que os minerais não transferem aromas ao vinho; pode até ser verdade, mas como as sensações organolépticas (olfato, paladar, tato) estão tão entrelaçadas na boca e nariz do amante de vinhos, é difícil não perceber neles certas sensações provenientes do calcário, do sílex, do basalto e até mesmo do ferro presente nos solos. 

2. Secundários 
São os aromas decorrentes do processo produtivo do vinho, da prensagem, da fermentação - provém do rearranjo das moléculas de compostos aromáticos em novas substâncias (álcoois, ésteres, lactonas, aldeídos...). As coisas começam a se complicar, pois algumas vezes estes aromas se confundem com os primários... Aqui entram as famílias dos odores químicos - os amílicos (banana, esmalte de unhas - percebem como se parecem?), os lácteos (manteiga, leite, creme) e os aromas de fermento (levedura, miolo de pão);

3. Terciários
São os aromas decorrentes tanto da élévage, da crianza, do envelhecimento do vinho em barris, que provoca um novo rearranjo molecular através da troca entre o vinho e o recipiente, como também da polimerização dos taninos, entre outros fenômenos físico-químicos que ocorrem ao longo do tempo que o precioso líquido permanece armazenado em barricas ou garrafas. Aqui surgem os aromas balsâmicos e empireumáticos (defumados), que se fundem com os demais aromas resultando no que se convencionou chamar de bouquet do vinho.


Entre as cepas brancos, podemos destacar as seguintes uvas e seus aromas varietais (alguns aromas secundários ou terciários também são citados quando inerentes às apelações dos vinhos às quais pertencem as cepas):
Alvarinho: 
Cepa do vinho verde no norte português, chamada de albariño na Galícia espanhola, apresenta aromas delicados de maçã, flores brancas como a tília, mel e, nas versões mais secas e frescas, maçã verde.
Chardonnay: 
Muito difundida ao redor do mundo, alcança um amplo leque aromático. A grosso modo, em regiões mais quentes tende a presentar mais aromas de frutas tropicais (manga, melão, abacaxi) e em regiões mais frias puxa para um frutado mais cítrico (limão, maçã verde), às vezes associado a aromas minerais (giz, calcário). A média entre estes dois extremos apresenta aromas de maçã, pera, avelã, noz, mel, flor de acácia; quando passa pela fermentação malolática (que transforma o ácido málico  - mais agudo -  em ácido lático, diminuindo a acidez total do vinho), apresenta manteiga, avelã, brioche, pão torrado. Quando é elevado em carvalho novo traz baunilha, caramelo (crème brulée), avelãs e amêndoas torradas.

Chenin blanc: 
Esta cepa é rainha dos ricos e abrangentes vinhos do vale do Loire, bastante difundida na África do Sul, onde também é conhecida por steen. Fresco, o vinho de chenin tem aromas de maçãs, peras, marmelo e goiaba branca. Quanto mais rico em açúcar, mais apresentam aromas adocicados de mel, acácia, tília, marmelada e tarte tatin
Gewurztraminer: 
Tida como uma das cepas mais aromáticas para a elaboração de vinhos brancos (na verdade, é uma fruta rosada, mas sua pele é imediatamente removida após a prensagem para não transmitir cor ao vinho). Apresenta aromas frutados de grapefruit, abacaxi, lichia, damasco, uva (sim, é uma das poucas cepas com aroma de uva, que se convencionou chamar de aroma muscaté, de moscatel), florais (rosa principalmente), especiarias (cravo, pimenta) e defumados.
Maria Gomes: 
Possui uma boa amplitude aromática, indo dos cítricos às frutas brancas (maçã, pera), amarelas (pêssego, damasco), ao mel e à pimenta branca.
Marsanne: 
Cepa delicada do vale do Rhône, muitas vezes vinificada junto com a Roussane, cepa mais rústica mas que combinam quanto aos aromas - cítricos, maçã, damasco, acácia, mel.
Muscadet: 
Cepa também delicada de vinhos secos e frescos (leves, com boa acidez), quase incolores e neutros, com aromas cítricos, de frutas brancas e moscatel, algumas vezes com aromas minerais de iodo, maresia.
Muscat: 
Moscato, moscatel. Aroma principal de moscatel, ó pá! Mas também tem limão, laranja, damasco, pêssego, lichia, rosa, tília, mel, evoluindo em intensidade conforme a doçura do vinho. Os vinhos doces desta uva possuem aromas inebriantes de doce de casca de laranja e abacaxi cristalizado.
Petit manseng: 
Uva que produz preciosidades em vinhos doces no sul da França, tem aromas de grapefruit, laranja, abacaxi (e suas versões cristalizadas), marmelo, damasco, pêssego, acácia, mel, cravo e canela, podendo ainda evoluir para trufa.
Pinot gris:
Pinot grigio; aromas frescos e ricos de grapefruit, abacaxi, maçã, marmelo, mel, açafrão e manteiga.
Riesling: 
Passa por todos os cítricos - limão, grapefruit, laranja, lima, maçã verde -  moscatel, abacaxi, pêssego, damasco, marmelo, flores brancas, mel... com esta cepa é comum ocorrer um aroma do tipo comumente chamado de químico, farmacêutico ou petroláceo: um aroma próximo ao de solvente ou querosene, que alguns julgam estar ligado ao envelhecimento destes vinhos e outros pensam ser um defeito de vinificação - uma falta de delicadeza no momento da prensagem da uva que ocasionaria o esmagamento de estruturas do bago que liberam este odor "desagradável" (o mais célebre defensor desta última teoria é Michel Chapoutier, grande vinicultor originário do sul da França e que ultimamente tem brincado bastante com a riesling na Alsácia). Particularmente eu gosto deste aroma, quando ele aparece (podem acreditar que ele cai bem, por incrível que pareça).
Sauvignon: 
Limão, grapefruit, moscatel, pêssego, groselha verde. Nas regiões mais quentes, aromas cítricos e de alguma fruta tropical (maracujá, abacaxi, kiwi) prevalecem. No Loire costuma ser mais seco, fresco e mineral (grapefruit, pedra de isqueiro, silex). Em Bordeaux aparecem também aromas mais vegetais como grama cortada, aspargos e o famigerado aroma de "xixi de gato", que já virou lenda... No Chile há uns vinhedos de sauvignon próximos à costa que resultam em vinhos com um belo aroma salino.
Ratificando o parêntese do início deste post, muitos entendidos afirmam que sais e minerais não tem aromas. Difícil saber se o que sentimos nos vinhos com essa característica é alguma sugestão, se é alguma sensação que vem do retrogosto, enfim... o fato é que é difícil dissociar um bom chablis da sensação de água do mar, um muscadet da sensação de maresia, um sauvignon de Pouilly-Fumé da sensação de sílex... 
Sémillon: 
Cepa muito rica aromaticamente, cuja percepção aumenta com a concentração de açúcar no bago - limão, laranja, grapefruit, abacaxi, melão, pera, marmelo, damasco, mel, açafrão, cravo, canela, manteiga, amêndoa e avelãs torradas.
Torrontés:
Cepa bastante aromática, passa por várias nuances frutadas (cítricos, frutas brancas e tropicais), lichia, flor de sabugueiro (quem já tomou licor St. Germain conhece bem este aroma), acácia, tília e especiarias como pimenta branca, anis e erva-doce.
Viognier: 
Cepa de delicados e etéreos aromas de moscatel, damasco, acácia, flor de sabugueiro, mel, violeta. A sensação de bebericar um vinho desta casta em Condrieu, em um verão às margens do Rhône, é indescritível, podem crer.


E entre as principais cepas tintas, destacam-se os seguintes aromas:
Cabernet Franc:
Cereja, framboesa, groselha vermelha, cassis (groselha preta), pimentão vermelho (no Loire também ocorre o aroma de pimentão verde), aromas terrosos, couro, defumado.
Cabernet sauvignon:
Framboesa, cassis, mirtilo, especiarias (pimenta preta, cravo, alcaçuz - um aroma difícil de explicar, algo entre o anis, o almíscar e o caramelo), cedro (caixa de charuto), grafite, menta, pinho, defumado.
Carignan:
Chamada de cariñena na Espanha, tem aromas de framboesa, groselha, mirtilo, amora, ameixa, pinho, cacau, defumado.
Carmenère:
Groselha, cassis, mirtilo, amora, ameixa, alcaçuz, chocolate, café.
Gamay:
Aromas frutados de cereja, groselha, framboesa e banana ou esmalte de unhas (este último realçado quando o vinho passa pelo processo de maceração carbônica).
Grenache:
Garnacha na Espanha. Cereja, groselha, framboesa, figos, morango, mirtilo, ameixa, tomilho.
Malbec:
Conhecida como côt no sudoeste francês. Groselha, cassis, mirtilo, ameixa, violeta, cedro, alcaçuz, cravo, defumado.
Merlot:
Cassis, mirtilo, amora, ameixa, alcaçuz, menta, café, trufa, caramelo..
Mourvèdre:
Na Espanha é chamada de monastrell.  Aromas de framboesa, mirtilo, amora, ameixa, pinho e especiarias como tomilho, cravo, canela e pimenta.
Nebbiolo:
Framboesa, groselha, mirtilo, cereja, violeta, trufa, pimenta, chocolate, defumado. Flores vermelhas, trufa, couro, tabaco, ervas (tomilho, alecrim).
Petit Verdot:
Cassis, mirtilo, amora, ameixa, cedro, cravo, defumado.
Pinot noir:
Muito se agrega à imagem do pinot noir os aromas de frutas vermelhas, mas os vinicultores da Borgonha, berço desta cepa, afirmam que o aroma primário da pinot é a cereja, só desenvolvendo morango ou framboesa depois da evolução do vinho pronto. Com o tempo também aparecem aromas florais (rosas, violetas), vegetais (folhas secas, trufas - o chamado "sous bois", - sob o bosque) e animais (carne, sangue, couro).
Sangiovese:
Vinhos toscanos. Morango, framboesa, groselha, cereja, ameixa, pinho, alcaçuz, defumado, aromas animais e terrosos.
Syrah:
Groselha, cassis, mirtilo, amora, violeta, alcaçuz, trufa, chocolate, couro, café e muita especiaria (a chamada garrigue do sul da França - azeitona, lavanda, alecrim, tomilho, pimenta, cravo...).
Tannat:
Framboesa, mirtilo, amora, ameixa, cedro, couro.
Tempranillo:
Em Portugal é chamada de Tinta Roriz no Dão e no Douro, como também de Aragonês no Alentejo; cepa emblemática dos Rioja e Ribera del Duero espanhóis. Framboesa, cereja, mirtilo, amora, ameixa, pinho, azeitona, alcaçuz, cravo, canela, chocolate, couro, defumado. Os reserva trazem um aporte aromático importante da crianza em barris, com toques de torrefação, coco, café, baunilha.
Touriga:
Cepa do Douro, onde origina grandes tintos tranquilos ou os fortificados vinhos do Porto. Frutas vermelhas, frutas negras, noz, violeta, pinho, cravo, caramelo, café, cacau, defumado.
Zinfandel:
É a mesma uva Primitivo do sul da Itália. Aromas de frutas vermelhas e negras, além de muita especiaria (cravo e canela), café, chocolate e caramelo.

Encontramos ainda nos vinhos alguns aromas relacionados a defeitos na fabricação , mal armazenamento (vinagre, ovo, cachorro molhado, mofo...) - qualquer bebedor de vinhos consegue perceber os defeitos através dos seus aromas, e não somente sommeliers formados, como alguns insistem em dizer por aí... mas isso fica para um próximo post.
Au revoir! Santé!

Referências bibliográficas:
- Le Petit Larousse des Vins;
- Le Nez du Vin (Jean Lenoir);
- Vinho (Oz Clarke)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Bodega Czarnobay merlot "Alto das Figueiras" 2011

Salut les amis!
Faz um tempo razoável que não escrevo sobre vinhos, mas agora surgiu uma grande oportunidade.
Me peguei num dia desses lendo uma matéria da revista Menu compartilhada em uma rede social, na qual a jornalista Suzana Barelli exaltava a presença de enólogos estrangeiros trabalhando em terra brasilis e o grande salto qualitativo que os vinhos nacionais tiveram com a contribuição desse pessoal. Como eu sempre digo: o Brasil é um país ainda novo, e um dia a gente aprende. Pois é: ainda estamos aprendendo a fazer, a trabalhar e a apreciar um bom vinho, mas de poucos anos para cá a evolução é bem notável.
Nunca é demais lembrar que tudo se iniciou mais seriamente no início do século passado, com a imigração de italianos e alemães ao sul do país, sendo que a influência desta imigração foi muito marcante desde quando a produção de uvas se resumia às variedades americanas para a produção do vinho "colonial" de garrafão para o consumo local.
Na mesma noite que li esta matéria, tive a oportunidade de mais uma vez comprovar a evolução do vinho nacional, provando um exemplar que me foi apresentado pelo Peter Wolffenbüttel, amigo "virtual" da página Alemdovinho, um grande entusiasta do vinho produzido no sul do país. Ao provar este merlot rolou em minha mente todo um flashback, aquela sensação gostosa que nós enófilos sentimos quando algum vinho nos remete a experiências já vividas, de estar relembrando bons momentos, uma satisfação muito grande em comprovar que nosso país produz algo tão bom, e a um preço super-competitivo. 
A primeira coisa a chamar a atenção é o visual: um belo rótulo em uma garrafa robusta, com personalidade! Com aromas complexos de ameixas, amoras, e framboesas frescas, um toque de bombom de cereja, já ao abrir a garrafa a emoção de provar um grande exemplar nacional já era evidente. Mostra também a madeira super-bem utilizada, com aromas tostados, de cedro, alcaçuz. Na boca é muito elegante, a fruta e o álcool muito bem equilibrados, somados à boa acidez dos vinhos nacionais (o que traz uma fineza e elegância que o diferencia de outros congêneres sul-americanos, açucarados e estruturados em demasia). Comprova o que muita gente vem dizendo, que o terroir ideal para as uvas tintas está localizado bem mais ao sul do Vale dos Vinhedos - entre a Serra do Sudeste, onde este é produzido - e a Campanha. Acompanhou muito bem uma massa com molho bem substancioso, mas eu diria que vai muito bem também com carnes vermelhas, principalmente cordeiro e até churrasco, ragus e funghi... De safra ainda jovem, creio que ainda vai evoluir bastante na garrafa. 
Este vinho me fez lembrar uma viagem que fiz há alguns anos, a Saint-Émilion e Pomerol. Preciso dizer mais?
À bientôt!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Ainda sobre a viagem à Florida - restaurantes e loja de bebidas em Orlando

Hello buddies!
Ainda tem alguns pontos sobre minha última viagem à Orlando que gostaria de compartilhar aqui no blog, partindo de onde parei no meu último post (veja aqui).

Esta foto noturna do totem do Bonefish Grill na Central Florida Pkwy saiu bem ruinzinha - por isso está pequenininha...

Gostamos de comer em um restaurante chamado Bonefish Grill, de uma rede fundada ali na Florida mesmo e que já se expandiu pelos EUA. No nosso caso, que costumamos ficar hospedados no Marriot Residence Inn, no Westwood Blvd., pertinho da Sea World, o restaurante fica bem próximo, na esquina com a Central Florida Prky. Na volta dos passeios sempre paramos por ali para fazer compras na CVS, que fica no mesmo plaza que o restaurante, então em algumas oportunidades aproveitamos para jantar. Ali encontra-se boas opções de carnes, peixes e massas em um menu bem completo e uma carta de vinhos bem escolhida. Na primeira vez que jantamos ali comi um steak acompanhado de um pinot noir encorpadão chamado Meiomi, assemblage de três distintos terroirs californianos:
Sonoma fica ao norte de San Francisco, Monterey ao sul e Santa Barbara se localiza bem mais ao sul, já próxima a Los Angeles. Todas recebem uma forte influência marítima, sendo que em Monterey ocorre um clima mais ameno devido à proximidade com a baía, que proporciona mais umidade e um tempo maior de maturação às uvas. Por causa destas variáveis, o vinho apresenta um leque muito grande de características organolépticas: tem aromas de frutas vermelhas e negras, chocolate, violeta e tostado. Encorpado, com boa acidez e taninos presentes, bem integrados; com final de especiarias como cravo, canela e pimenta preta. Me pareceu um vinho bem "tecnológico". Atualmente este vinho está no catálogo da Mistral aqui no Brasil.
Certa vez jantamos no Trio, um "italiano" na praça de alimentação do Mall at Millenia. Estava uma noite agradável, quente, então resolvi pedir um prato de massa com frutos do mar e um chardonnay leve para acompanhar - infelizmente o prato estava tão apimentado, quase intragável... preferi só beber o vinho.



Cuidado com a pimenta nos restaurantes na Florida... Embora goste de pratos levemente picantes, eu sempre pergunto. Mas desta vez o garçom me enganou...
Este se mostrou um chardonnay californiano muito bem equilibrado, o que não é lá coisa muito comum. O vale do Russian River, composto principalmente de solos arenosos, se estende do condado de Sonoma, ao norte de SF, até a região do Mendocino, a uns 40km da costa do Pacífico, sofrendo portanto um pouco menos de influência marítima que os terroirs anteriormente citados, mas tem uma amplitude térmica muito grande durante o dia, com noites frescas, o que favorece a acidez correta das uvas no momento da colheita. Este vinho demonstrou aromas de frutas brancas (pera, pêssego) e toques cítricos de maçã verde, com um toque leve de baunilha indicando que passou por barricas. Com corpo médio, sem perder o frescor. Final longo e frutado.
Sempre vamos também ao Olive Garden, outra rede de restaurantes de acento italiano bem comum por lá. Tem bons pratos, ambiente gostoso e preço bom. Como na noite anterior, o repasto se resumiu a pasta com frutos do mar e vinho branco - desta vez, um italiano da boa azienda toscana Rocca delle Macìe.



Corte de chardonnay, vermentino, pinot griggio e trebbiano. Aromas florais, grapefruit, abacaxi. Mineral e "crocante" na boca, super-fresco. Caiu super-bem na noite quante de verão. 
No dia seguinte passamos, na volta de algum parque, pela Total Wine & More, um verdadeiro hipermercado de wine&spirits. Infelizmente ficamos pouco tempo por lá, pois estávamos exaustos, ainda assim deu para garimpar ótimas compras. O preço dos Bordeaux é bem atrativo, me chamou à atenção. Minha mulher disse que eu estava parecendo pinto no lixo, perdidinho em felicidade no meio daqueles corredores "temáticos" - a área de vinhos é toda dividida por região produtora, e quanto às demais bebidas cada uma tem um próprio setor - um corredor só de vodka, outro de rum, um de whisky (scotch de um lado, bourbon de outro)... Deus! é o Paraíso na Terra!

Uma imensa adega climatizada abriga as garrafas mais valiosas da loja
Esta seção de Sauternes me deixou extasiado! Variedade de rótulos - e safras!

Galões de bourbon em promoção - menos de R$10 por litro!
Nosso último jantar em Orlando foi também no Bonefish, e desta vez pedimos ótimos pratos de camarão e um chardonnay do Coppola para acompanhar. Os pratos, como sempre, estavam deliciosos, e o vinho, também de Russian Valley, apresentou o corpo e as caracterísitcas mais esperadas para um chardonnay californiano.




Aromas de abacaxi, pêssego em calda e crème brulée. Boa cremosidade e boa mineralidade na boca, final de caramel au beurre salé, com uma pontinha cítirca...
E foi assim, meus amigos, nossa última visita à Orlando, uma gigantesca cidade das crianças onde os adultos também se divertem. Pois como diria Washington Olivetto, ali só os patetas comem mal...
See you!





terça-feira, 19 de julho de 2016

De volta de Orlando: vinhos e mais vinhos made in America, além de boa comida, of course!

Hi dear!
De volta da Florida Central, como prometido na última postagem (veja aqui), seguem minhas impressões sobre os caldos de uva que andamos tomando pelos lados de Orlando. Desta vez tive a oportunidade de conhecer a Total Wine & More, um verdadeiro hipermercado de bebidas, além de visitar novamente a Wine Room, ótimo bar à vins de Winter Park, além de provar bons rótulos durante os jantares (o lunch geralmente fazíamos nos parques ou durante as compras, então eu já me dava muito por satisfeito caso uma cerveja gelada estivesse disponível nestas ocasiões...)
Conforme relatado anteriormente, não notamos alteração dos preços em dólar em relação à nossa última visita - para um jantar para 4 pessoas, com um bom vinho, despendemos em média 100, 120 dólares. Infelizmente o câmbio para o real atualmente não está nada favorável para o turista, o que acaba prejudicando um pouco as compras em geral (o consumo dos brasileiros chegava à marca dos 40% do comércio em toda a Florida na época das vacas gordas!). No caso das bebidas, ainda compensa bastante comprar lá. E, como costumo dizer, quem converte não se diverte. A partir do momento que fechei o orçamento da viagem em dólares deixei de fazer contas.
No dia em que fomos ao Epcot Center (a cada vez eu gosto mais do Epcot, vocês perceberão o porquê nas próximas linhas), almoçamos no Coral Reef, e foi um belo almoço. Ao lado de um aquário enorme, o ambiente é agradável - e a comida, boa. Comi um bom prato de massa com uma brochette de frutos-do-mar ao molho de vinho. Entre boas opções de vinho em taça, escolhemos um gewurztraminer Trimbach 2011, que foi aberto na hora. Muito aromático, presentava nuances de damasco seco, pera cozida, muscaté e licor de flor de sabugueiro; denso e ceroso na taça, tinha um finalzinho apimentado, com gosto de anis. Muito bom começo.
Na área do parque caracterizada como os EUA, há um quiosquezinho de cervejas "artesanais" americanas. Com um calor infernal resolvemos parar para tomar uma e assistir um showzinho de um grupo que cantava à capela no palco. Bebi a Honor Warrior, uma indian pale ale forte e cítrica, além da Hazed Hoppy Session, outra IPA, um pouco mais leve mas mais amarga. Dois ótimos exemplares de cerveja americana, vindas da Virginia e do Colorado, respectivamente.
No jantar, fomos ao Chefs de France, outra das boas opções para se comer dentro dos parques em Orlando. Comi um menu fixo composto de uma entrada de sopa de cebola e boeuf bourguignon como prato principal. Bebemos um borgonha genérico da Bouchard Ainé, que acompanhou bem o jantar - leve, frutado e bem característico (boa acidez, frutas vermelhas frescas, mas sem muita complexidade). Cabe ressaltar que em uma loja ao lado existem boas opções de vinhos e algum champagne em taça, para quem quiser só experimentar a bebida (eu mesmo já havia tomada um copo do rosé de Miraval, um château provençal que foi comprado pelo casal Pitt-Jolie e que é vinificado pela tradicional família Perrin - bom vinho).
No dia seguinte, dedicado a algumas comprinhas, almoçamos na Cheesecake Factory do Mall at Millenia - o incontornável shrimp scampi acompanhado de uma taça de um bom chardonnay californiano. Mas o bom mesmo desta refeição foi a sobremesa - um cheesecake de caramel au beurre salé. Impagável!
No dia seguinte (um sábado) fomos a Winter Park, uma cidadezinha muito simpática a uns 20 minutos de carro de Downtown Orlando. Estava um dia ótimo, havia uma feirinha de produtos orgânicos na praça ao lado da charmosa estação ferroviária, os esquilos estavam tomando um solzinho nos gramados em volta dos pinus. Muito legal passear por ali, mas melhor ainda é entrar na Wine Room, carregar o cartão com umas dezenas de dólares e sair bebericando os diversos rótulos expostos nas eno-matics em volta do salão da loja. Uma ótima maneira de conhecer melhor os vinhos norte-americanos e, quem sabe, provar algum vinho ícone. A resenha dos vinhos que provei legenda as fotos abaixo.
Em um próximo post continuo a contar nossas peripécias enogastronômicas na Florida. 
See you buddies!


Na Wine Room, comecei por este sauvignon porque imaginava ser o mais leve na enomatic dos brancos, e realmente se mostrou um vinho fino e elegante, com aromas cítricos, de maçã verde e vegetais frescos, com um final condimentado de pimenta-branca e erva-doce.
Em seguida provei este chardonnay das "terras altas" de Santa Lucia (condado de Monterey, bem ao sul de San Francisco, lado oposto dos mais conhecidos terroirs de Napa Valley e Sonoma County). Demonstrou um bom equilíbrio entre frescor e notas amanteigadas de frutas brancas em calda (pêssegos e peras) e baunilha, com uma boa cremosidade na boca.
Até então não conhecia a Cakebread Cellars, mas este chardonnay do Napa trouxe a certeza de se tratar de uma bela vinícola. Vinho bem fresco, que nem parece ter passagem em barrica - estilo mais para o velho mundo, bem elegante. Com aromas cítricos e lácteos, é muito bem equilibrado na boca, e tem um final bem longo e frutado.
Este chardonnay "Far Niente", safra 2014, tem mais a cara a que estamos acostumados dos vinhos americanos: baunilha, frutas tropicais - manga, melão, abacaxi (eu já havia provado a safra 2011 deste vinho, e achei uma nota de degustação curiosa: epocler!) e pera em calda. Denso, amanteigado, redondão na boca.  
O vinho, a lenda, o mito... Acredito que longe da safra 73 que venceu vinhos da Borgonha na célebre degustação às cegas que ficou conhecida como "O julgamento de Paris", este Montelena 2013 sob minha ótica não passa agora dos 90 pontos. com aromas de maçã, pêssego e cítricos, é redondo e amanteigado na boca, com final seco e cítrico. Sua boa acidez e a cor, ainda com reflexos verdeias, demonstram que ainda pode evoluir bem.
Confesso: provei este vinho porque achei a garrafa chamativa, bonita (parece um trabalhinho de pintura a guache com as mãos que fazemos na pré-escola). É um merlot "Winemaker's Handprint Collection",  2012, da vinícola Meeker, localizada a meio-caminho entre Sonoma e Mendocino. É um belo merlot, com aromas complexos de frutas negras e vermelhas confitadas, bom corpo e equilíbrio na boca, boa passagem por madeira, que dá um caráter caramelado ao vinho. 14,5% de álcool e um baita equilíbrio - isso, a meu ver, seria um belo elogio!
Este foi outro vinho legendário que provei na Wine Room. Exuberante!!! Cor densa, impenetrável. Aromas de ameixa seca, geleia de amora, com um defumado intenso, aromas de cedro, de caixa de charuto, cacau, rosas murchas, alcaçuz. E nada muito exagerado, pelo contrário! Muito redondo na boca, aveludado, uma sensação de plenitude! Realmente é um vinhaço.