quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Diário de Viagem - dia 8 - Château de Pommard e Côte de Beaune

Salut les amis!
Saindo do nosso almoço no Le Montrachet, seguimos pela Route des Grands Crus em direção à Beaune, chegando em Meursault - terra dos cheios e untuosos vinhos brancos e da igrejinha típica de torre quadrada; pouca gente sabe, mas esta comuna também produz vinhos tintos, bem na divisa com Volnay, e por isso recebem a apelação Volnay-Santenots. 
À frente no nosso caminho estava Volnay - terra dos lendários vinhedos de Les Caillerets e Taille Pieds - e Pommard, dos "rústicos" Rugiens. Cabe aqui registro que meu interesse pela Bourgogne se transformou em verdadeira paixão quando, em minha última viagem, degustara - de um mesmo produtor e da mesma safra - dois vinhos de mesmo nível, um Volnay e um Pommard, tão diferentes, mas tão diferentes entre si... e a única e direta explicação para isso é uma falha geológica que ocorre na divisa entre os vinhedos! É realmente de se impressionar, esse terroir bourguignon... como eles dizem, é um verdadeiro mille-feuille geológico!  Muitos enófilos distinguem Volnays de Pommards como vinhos "femininos" e "masculinos". Não creio que seja algo tão radical, tipo Yin e Yang. É algo mais sutil, como uma paleta de vermelho onde vai-se acrescentando azul - digamos que é uma diferença do violeta ao púrpura, metaforicamente falando. Os Pommard tem mais tanino, mais força, mas nem por isso os Volnay são mais frágeis e menos complexos...

Vinhedos Premier Cru em Meursault - dizem que o village não possui nenhum Grand Cru pois, na ocasião da definição das apelações, muitos proprietários acreditavam que seu vinho era muito superior para ser comparado a outros vinhos da Côte...




Vista dos vinhedos Premier Cru de Volnay



O vinhedo murado des Épéneaux - ou Épénots - comuna de Pommard
E depois de passear um pouco de carro entre os vinhedos, ao chegar em Pommard nos deparamos com o Château de Pommard - e estava aberto para visitação, embora fosse domingo! Fomos muito bem recebidos e, cerca de 20 minutos depois de chegar e conhecer os belos jardins do château, iniciamos uma visita muito bem guiada por M. Étienne, que nos conduziu pelas dependências abertas da propriedade, pelo vinhedo murado - o clos - a cave e uma boa degustação para terminar. A propriedade tem um ar todo aristocrático, mas apesar de toda a pompa está incrustada na região de vinho comunal de Pommard. Ao longo da visita, Étienne nos contou sobre a longa história de mais de quatro séculos do château, e nos falou da paixão de seu atual proprietário pelas artes - o castelo possui entre seus bens permanentes belas esculturas de Dali e na ocasião da nossa visita estava acontecendo uma mostra com mais obras do artista, como também de Picasso e Miró, entre outros pintores e escultores - uma exposição magnífica! 
Também conta com um pequeno museu vinícola, onde se encontra um velho pressoir (prensa de uva) e diversos utensílios do cultivo da vinha e da produção do vinho. Existe também, aberta à visitação, uma antiga cozinha do château, toda ambientada como se ainda estivéssemos passando da Idade Média à Idade Moderna.
O castelo também funciona como cave cooperativa para viticultores de outros villages, possuindo um extenso repertório de vinhos bourguignons em seu portfolio.

















E depois de terminar a visita com algumas comprinhas, seguimos com destino à Beaune, passando por mais algumas belas paisagens da Côte de Beaune:


No final da nossa andança tivemos que nos apressar um pouco, afinal tínhamos reserva para o Le Benaton, restaurante estrelado no centreville de Beaune, onde também passaríamos por ótimos momentos!
Au revoir! Santé!




























































segunda-feira, 7 de julho de 2014

Diário de Viagem - Dia 8 - Beaune - Um passeio pela Côte d'Or

Salut les amis!
Domingão na Bourgogne, interior da França, tudo fechado... Fazer o quê? Pegar o carro, rodar pelos vinhedos e aproveitar as reservas para os ótimos restaurantes que tínhamos para o dia.
Saímos do hotel em Beaune por volta das 9h30 com destino à Fixin, sentido Dijon, talvez o village mais ao norte da Côte d'Or (na verdade é o penúltimo, Marsannay fica ainda mais "pra cima"). Minha idéia era voltar de lá até Puligny-Montrachet, ao sul de Beaune, se embrenhando nos vinhedos. O trajeto pela estrada regional, a D974, tem pouco mais de 40km e pode ser feito em torno de uma hora, mas pela Route des Grands Crus, que corta os vinhedos e passa muitas vezes por dentro dos villages, demora bem mais do que isso. Ainda mais porque é irresistível parar muitas vezes para apreciar a paisagem e registrar tudo em fotografias, algumas das quais eu compartilho abaixo...




























































Mas, devido ao adiantado da hora, de Aloxe-Corton pegamos a D974 e fomos direto para Puligny-Montrachet, onde tínhamos reserva no Le Montrachet, ótimo restaurante do hotel homônimo. Um lugar discreto e muito elegante, com ótimos menus e uma carta de vinhos infindável! Pedi um Chassagne-Montrachet Marc Morey 1er Cru "Les Vergers" 2007, pois o prato principal era um etéreo filé de peixe com risotto de aspargos cobertos por uma tuille de nero di sepia, um prato magnífico! O vinho, de um amarelo dourado límpido, tem aromas de pêra e frutas secas e está ainda muito fresco e mineral na boca, com um final mesmo um pouco cítrico, delicioso.  Magnífica também era a sobremesa, um gâteau de chocolate e menta acompanhado de um delicioso sorvete de baunilha regado com um inusitado azeite de oliva! Também foram servidas ótimas gourmandises, como um docinho de cassis, macarron de framboesa e caramel au beurre salé, que foram saboreadas com o café.









E depois deste belíssimo almoço até que bateu uma preguicinha... Mas precisávamos concluir nosso passeio pela Côte de Beaune à tarde... (e isso é assunto para o próximo post).
À bientôt! Santé!
















quinta-feira, 5 de junho de 2014

Você sonha em ser produtor de vinhos?

Salut les amis!
Se você tem o sonho de ser produtor vinícola, e de quebra em uma das mais lindas regiões vitivinícolas do mundo, sua chance pode ter chegado: um empresário brasileiro, já experiente na compra de vinhedos no exterior, entrou com um processo para aquisição de 2,5ha de vinhedos na região de Mercurey, na Côte Chalonnaise, logo ao sul da Côte d'Or, na Bourgogne. Acabei de passar por lá em viagem de férias - e é mesmo um lugar maravilhoso.
O projeto de aquisição da propriedade, de área total de 3,5ha, foi aprovado e agora está sendo formado um grupo de investidores cotistas para arrematar a compra, que incluiu também um manoir do século XIX (um petit château), que será explorado como chambre d'hôtes, além de uma bela capela em estilo gótico, tudo isso numa localização muito turística, pertinho de Châlon-sûr-Saône, Chagny e Saulieu, com suas inúmeras atrações.
Assistam ao vídeo, e se quiserem maiores informações entrem em contato através do e-mail contato@vinhoetc.com.br. Faltam poucas cotas para fechar o grupo.
E lembrem-se que cheval arreado não passa duas vezes...
Bonne chance! Santé! 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Diário de Viagem - dia 7 - Do Rhône à Bourgogne

Salut les amis!
Começamos o nosso sétimo dia de viagem com uma visita ao Château des Papes, em Avignon, afinal nos dias anteriores mal havíamos parado nesta bela cidade par conhecê-la melhor. O castelo foi construído pelo Reinado de França por ocasião de um cisma que ocorreu entre este Estado e o Vaticano, por razões políticas, e, sendo este o maior e mais poderoso reino católico da época, resolveu nomear seus próprios Papas, por um período entre os séculos XIII e XIV. Embora seja grande e bonito, eu tenho para mim que estes Papas franceses tinham uma pontinha de dor de cotovelo dos seus colegas italianos, que viviam na pompa e luxo de Roma. Mas enfim... Valeu a visita!




Retornamos ao hotel para apanhar as malas e carregar o carro, afinal tínhamos uns 400km de viagem pela frente até chegar em Beaune, na Bourgogne, e tínhamos planos de parar para almoçar no caminho.
Novamente tomamos a Autoroute do Soleil, a A7, sentido norte, passando pelas belas paisagens vinícolas que conhecemos nos dias anteriores. Mas desta vez deixamos a colina de Hermitage para trás e, nos próximos 60km, a vinha novamente praticamente desapareceu de vista de quem segue pela estrada, embora estivéssemos passando pelas regiões de Crozes-Hermitage, na margem esquerda do Rhône, e St. Joseph, do outro lado. Neste trecho a vinha dá lugar a florestas e outras culturas, como frutas e a colza.
Mas chegando em Vienne a vinha ressurge soberana do outro lado do rio, na altura dos vilarejos de Condrieu e Ampuis. Resolvemos cruzar o rio e conhecer um pouco mais destes famosos vinhedos, seguindo para as vinhas do Château Grillet, tido por alguns como um dos cinco maiores vinhos brancos de França, ao lado de Montrachet, Sauternes, Coulée de Serrant e Château Châlon. No caminho passamos por um belo aire, uma área de descanso preparada para pique-nique e não tivemos dúvida: na volta passamos em um super-mercado, compramos pão, queijos, uma terrine de campagne, quiche e bebidas e paramos para almoçar ali, do ladinho do Rhône.



Seguimos depois para Côte Rôtie, passando no village de Ampuis pelas sedes de duas importantes empresas da região: a Guigal (tida por muitos como a principal maison do Rhône) e a Vidal-Fleurie (que atualmente também pertence à Guigal). Esta encosta recebe este nome por causa da sua ótima exposição ao sol e é sub-dividida em Côte Blonde (loira), de solo mais claro, calcário e Côte Brune (morena), de solo escuro, argiloso. Ali Guigal produz seus míticos vinho "la-la-la" - o La Mouline (Côte Blonde), o La Turque (Côte Brune) e o La Landonne, um assemblage. Esse vinhedo em terraços é impressionante.


Cruzamos novamente o rio, deixando os vinhedos do Vale do Rhône para trás e seguindo mais uns 30km até Lyon, a segunda metrópole francesa, que já tivemos oportunidade de conhecer em outra ocasião, e então desta vez passamos direto. Mas não sem antes pegar um bouchon (congestionamento), pois a estrada passa por dentro da cidade e precisávamos sair para o norte, agora pela Autoroute A6, que liga Lyon a Paris, passando por Beaune.
Logo na saída de Lyon já entramos na região do Beaujolais, este vinho que infelizmente virou sinônimo de vinho ordinário graças a produtores inescrupolosos que inundaram o mercado com vinho ruim tentando pegar a onda do Beaujolais Nouveau, um vinho produzido rapidamente após a colheita, pelo método de maceração carbônica e que é prontamente engarrafado para que chegue aos bistrots parisienses e bouchons (bistrots típicos) lyonnaises na terceira quinta-feira de novembro, data que se convencionou para uma grande campanha de marketing em cima deste vinho, que se tronou febre entre a juventude festiva por se tratar de um vinho facinho de beber, frutado e leve, ainda mais geladinho... A maceração carbônica é um processo pelo qual as uvas, lançadas em um tanque inox hermeticamente fechado, maceram pela ação do gás carbônico que liberam na fermentação dos bagos que vão se rompendo pela ação do seu próprio peso na cuba. Atualmente os bons produtores de Beaujolais, principalmente os dos dez crus de Beaujolais, que ficam mais ao norte da região, lutam para resgatar a reputação de seus vinhos, sempre feitos de gamay, mas que hoje, principalmente pelo fator do aquecimento global, podem gerar resultados bem interessantes - eu mesmo já tomei muito bons Beaujolais de Morgon e Fleurie.
Continuamos subindo sentido norte pela A6, chegando à Bourgogne primeiramente pelo Mâconnais, região conhecida também como Côte Mâconnaise, região que circunda o vilarejo de Cluny, do famoso mosteiro medieval, e que contêm as denominações de Pouilly-Fuissé, Pouilly-Vinzelles, Pouilly-Loché e St.-Véran, todas reconhecidas por um fresco e mineral vinho de chardonnay. Em seguida passamos pela Côte Chalonnaise, na face oposta da estrada à cidade de Châlon-sur-Saône, um pouco mais afastada da A6. Na margem da estrada vemos vários bosques e extensas plantações de colza, e apenas poucos vinhedos.
Enfim, depois de aproximadamente 90km e uma hora de estrada desde que passamos por Mâcon chegamos em Beaune! É muito bom conhecer novos lugares quando viajamos, como também voltar para aqueles que mais gostamos! Como da primeira vez, nos hospedamos na Hostellerie Le Cèdre, um ótimo hotel super bem localizado, na avenida periférica do centro da cidade, com acesso muito fácil de carro às estradas e à pé ao centreville. Fizemos o check-in, demos uma descansada - afinal ninguém é de ferro - e saímos para jantar no Le P'tit Paradis, um bistrozinho delicioso na Rue du Paradis. É, caro amigo, é preciso se acostumar que na Bourgogne os nomes são muito sugestivos...
Au revoir! Santé!